Claro que não de vez, pois existem situações na minha vida em que sua presença é necessária, praticamente obrigatória, ainda que eu não queira isso.
Mas pelo menos naquele assunto
Ah, mas é claro que lembra!
Nós duas sabemos que há um assunto em particular no qual você sempre deu um jeito de se meter sem convite, e no qual sua presença não era necessária, nem bem vinda, aliás. Entretanto era só ele aparecer e lá estava você. Você e seu olhar gelado, realista e crítico. Você com a sua opinião forte, decidida e impressionantemente correta. Você.
Até que por um tempo, você deu uma trégua. Até mesmo quando esse assunto vinha à tona, onde estava você? E eu que sempre detestei a sua presença, consegui sentir fortemente a sua falta, você acredita? É, nem eu.
Mas não pense que isso é um ato de afeição gentil. Pelo contrário. Você às vezes é tão detestável que a sua incômoda presença, sempre muito intensa, faz falta sim, mas causa medo. Pânico, até.
É, porque afinal de contas, se quando você já está em tudo é extremamente humilhante e estressante, imagina então se você acaba por me pegar de surpresa?
Claro que nós tivemos nossos bons momentos.
Momentos em que por sua causa eu superei minhas próprias expectativas. Foi mais na tentativa de te fazer ir embora da minha vida, mas ainda assim eu superei a mim mesma, e suponho que isso seja algo bom. É, acho que seria mesmo, se parasse por aí.
Acontece que, novamente graças a você e a sua maldita pressão sobre mim, os meios que usei nessas ocasiões não foram, naturalmente, os mais sensatos. De fato, em alguns momentos, talvez tenham sido até autodestrutivos.
Mas, afinal de contas, indo pela sua lógica, que superação combina com sensatez, não é mesmo? Afinal, o ato de superar-nos a nós mesmos é algo extraordinário, ou seja, que vem de fora da gente, logo, é insensato para nós.
E o mais impressionante nisso é que depois de tudo, quando eu me torturava na tentativa de acreditar naquele velho jargão que diz que os fins justificam os meios, lá estava você!
Sim, você que havia me induzido a toda essa teoria babaca, estava bem ali, me dizendo que eu era mesmo uma fracassada por ter tido atitudes tão inúteis. Que eu era, aliás, tão inútil quanto à própria situação ridícula na qual eu mesma havia me colocado.
Porém, como eu disse no início, é impossível me livrar de você de vez. Mas agora que nos distanciamos um pouco, vejo que você sente mais a minha falta do que eu a sua.
E nem tente negar. A sua insistência petulante em me procurar em todos os lugares onde estou, em tudo o que faço, mostra isso claramente.
E esse é o motivo de eu estar escrevendo pra você!
Veja bem, apesar dos nossos autos e baixos, e baixos e baixos, preciso dizer que sinto uma pontinha de remorso (aliás, um grande aliado seu, naquelas memoráveis festas em que eu era sua convidada VIP! Lembra?) por não estar mais tão ligada a você como antigamente, sabe? Por não estarmos tão unidas, eu e você, você e eu.
Só de estar escrevendo isso, já quase posso ver seu olhar virar de indignação, mas, por favor, não fique assim!
É que agora eu não me supero em mais nada, entende? Na verdade, não faço muitas das coisas que nos mantinham tão unidas, o que nos traz a esse afastamento, mas volto a dizer: tenho absoluta certeza que nós ainda vamos nos ver muito! É algo inevitável, eu bem sei.
Mas não agora.
Agora as coisas menos pessoais tomam conta da minha agenda, e aquilo que já faz parte de mim, que praticamente mora nas minhas entranhas, acabou ficando um pouco pra escanteio, entende? Afinal de contas, o que já está conosco, nunca se vai. E você, colega, já faz parte da minha vida e de mim. Sempre fez, não é?
Aliás, a maior prova disso, é que mesmo agora que nós não estamos tão ligadas, ainda te sinto aqui comigo.
A diferença é que hoje eu sei que você apenas está em mim, entranhada e selada. Mas é só isso, nada mais. Você apenas vive
Mas agora eu sei que eu não pertenço a você, e nem você a mim. E nunca pertenci. Nem a você, nem a nada do que você me fazia crer que eu pertencia.
Não passava de uma ilusão patética criada por você e acreditada por mim.
Mas ainda assim estou ansiosa, cara amiga, para o nosso próximo encontro mais íntimo.
É, porque eu sei que você vai dar um jeito de sair de mim e tentar me tomar para você novamente, um dia desses.
Pergunto-me apenas se você, colega, é capaz de fazer isso agora que me encontro nesse curioso estado de superação sensata, que, a propósito, foi alcançada sem a sua ajuda e que acredite se quiser, não é ilusório e sim, bem real.
Minha grande dúvida é se eu mesma entendo tudo isso o suficiente para mostrar-me a você, cara amiga Culpa, sem me perder no meio do caminho.
Nunca sua,
J, the little writter.

Comentário menos instrospectivo e mais expectativo.. Se você chegasse ao fim e não dissesse quem era "ela" eu juro que eu te ligava para perguntar!
ResponderExcluirComentário mais introspectivo e menos expectativo.. A culpa e o medo são dois sentimentos necessários.. Sem a culpa tenderíamos ao erro.. E sem o medo...
Mas a culpa como companheira imparcial não é uma boa companhia.
ResponderExcluirSempre que passamos tempo demais com alguém, tendemos à entrar cada vez mais no mundo deste alguém, e, consequentemente, começamos à passar tempo demais com quem este alguém costuma ter em volta.
No caso da culpa... Passe um tempo integral com ela e verá que além do medo, ela traz várias outras "companhias" que não seremos hábeis para driblar, depois... O ódio, o auto-exílio, a tristeza, a depressão, a baixa estima, as... Várias!