quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Medo.

A gente tem essa tendência estranha de não admitir que sentimos os sentimentos mais belos, que tivemos ou queremos ter, as atitudes mais belas, também. Alguém já reparou?

As pessoas constantemente dissertam umas com as outras sobre como há pessoas que são "arrogantes", "invejosos", sobre como algumas pessoas podem ser "egocêntricas", "vaidosas demais", e por aí segue uma lista infindável de outros adjetivos e/ou sentimentos, os quais são, logo após serem mencionados, taxados como coisas ruins e horríveis.
Por outro lado, há também os sentimentos e atitudes pelos quais todos parecem ter uma grande empatia. Sempre vemos as pessoas criando frases e pensamentos à respeitos deles. Do amor, da caridade, da compreensão, da bondade, da paciência, da humildade... A lista aqui também vai longe.

O fato é que isto acontece, e parece uma opinião e atitude bastante sensatas, não é?

É, seria.
Seria se não fosse o fato de as pessoas só falarem. Mas na hora da prática, no dialeto popular "na hora do 'vamos ver'", a coisa se apresenta de modo diferente.

As pessoas acham e dizem por aí que a humildade é essencial, andam umas ao lado das outras pregando idéias sobre a humildade e sobre como o OUTRO deve agir. E então, no segundo seguinte, este que falava começa a contar uma história sobre como estava na fila do mercado e alguém passou na frente dele como se não tivesse visto, e ele já foi imediatamente queixando-se, colocando-se na condição de superior, usando de ironia e sarcasmo para desmerecer a pessoa "infratora" que roubou o seu lugar na fila.

Eu me pergunto: o mais sensato, neste caso e em outros semelhantes que vocês podem imaginar, não seria que ele abordasse a pessoa de forma humilde, como prega, questionando primeiro se esta pessoa o tinha visto, para, então, explicar-lhe, com a ajuda da amiga paciência, que estava naquele lugar antes?

Não seria ESTA a atitude pela qual esta pessoa deveria orgulhar-se e contar por aí, e mostrar aos outros, já que é isto que ela prega?

Também não admitimos que amamos, às vezes. Preferimos fazer o outro pensar que não amamos, que somos indiferentes, por medo de encararmos o amor.

Aliás, aí está outro sentimento da lista dos "abomináveis" que adoramos ter em nosso dia-a-dia: medo. Ao invés de apostarmos na coragem tão bem quista por todos, nós pregamos a coragem e fabricamos o medo.

Fora esses exemplos, se cada um de nos ler o segundo parágrafo novamente, com calma, achará varios outros fatos, provavelmente fatos verídicos que estrelaram nossa própria vida, dos quais fomos os protagonistas.

A questão é: por que agimos de forma tão estúpida?
Não tenho as respostas, mas eu diria que o pai de tudo isso, é o ja citado medo.

Nós temos medo de agirmos corretamente e sermos julgados. Nós também temos medo de admitir que agimos errado, por isso pregamos o certo. Nós também tememos explicitar atos "dignos" que fazemos, por vergonha alheia, por isso, quando conseguimos de fato agir de modo coerente com o que gostamos de idealizar por aí, cometemos o cúmulo da contradição e mudamos a história para parecermos heróis do ego, da arrogância, da ganância, do orgulho...

O medo escorre do nosso cérebro pra fora, pela testa, passa pelos olhos e termina articulado na nossa boca, que por sua vez o envia para os ouvidos de alguém, proliferando assim esse tipo de atitude estúpida.
Viagem.

Uma bad-trip.

2 comentários:

  1. Taí um medo que não compartilho muito.. Mas devo dizer que tem suas consequências boas e ruins!

    Parêntese: Estava lendo teus textos e no meio parei pra procurar uma foto aqui no teu face, e fui passando foto a foto tua.. É tão fácil ligar tua imagem ao que escreves...

    =)

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  2. Todo tipo de medo as tem, né?
    Eu sofro deste.

    E de outros, tantos outros.

    Medo niilista, medo sôfrego, medo corajoso, medo, medo, medo...

    Me-dá um-medo...

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