segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O reflexo.

Vivia numa prisão.

Sem paredes, sem portas, nem janelas, sem amarras, sem limites, sem cores, sem nada.
Só sabia-se tratar de uma prisão pois ela estava presa.

- Presa? Mas como poderia, sem as amarras e as portas e as janelas?

Pois eu lhes digo, lá estava ela, presa como nunca antes alguém esteve.

Naquele lugar de imensidão profunda, sem paredes, portanto, sem profundidade (ou com profundida infinita), ela encontrava-se parada. Parada onde poderia ser o centro, o canto, o andar superior, inferior, o telhado, o porão, qualquer pedaço da prisão.
Não se sabe.

- Mas como poderia?

Ela tentava mover-se.
Nada.
Deu um passo mentalmente, suas pernas não obedeceram.
Tentou mexer os braços.
Nada.

Os únicos membros que pareciam vivos eram seus olhos, que olhavam mudos, presos à uma face congelada. Seu cérebro, que fazia questão de obrigá-la a conscientizar-se de cada detalhe, cada sensação angustiante que a situação trazia. E por fim, seu coração, que batia fortemente, com um som alto, ensurdecedor, enlouquecedor.
Um coração que estava gelado como a neve.

Mais nada.

- E o que?

Desespero, agora.
Ela queria andar, não podia. Queria mover-se e não conseguiu.
Sentiu ímpetos de gritar, gritar não só com a boca, mas com todo o corpo. Gritar toda a angústia e a dúvida, mas só conseguiu mudos gritos de desespero com o olhar.
E seu olhar já não era visto por mais ninguém.

Aquele lugar, aquela prisão, era ao mesmo tempo ela mesma e aquilo que gostaria de tomá-la para si, de uma vez, sem que ela percebesse.

Era o mal, o terrível da menina.
Era aquilo que a forçava a prender-se em si mesma, e em nada mais. Que a queria solitária e para si, sempre e para sempre. Sem ningué, pra mais ninguém.

Era ela mesma, só que pior.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Paradoxo Demente.

Às vezes nós falamos, mudamente.
Ou ficamos mudos, enquanto tagarelamos.
É um paradoxo, acho.

Nós vivemos em paradoxo.
Vivemos em julgamentos.
Vivemos em fingimentos.

Vivemos fingindo que gostamos.
Vivemos fingindo que não ligamos.
Vivemos fingindo que não nos importamos.
Quando tudo o que fazemos é por nos importarmos demais, especialmente quando negamos tal importância cedida.

Paradoxo demente.
Doentio.

Nós vivemos na doença.
Nós fodemos uns aos outros e nós mesmos só pra provarmos que tal doença da personalidade não existe.
Nós beijamos e abraçamos aquilo ou aqueles de quem temos nojo só pra não cairmos na "demência" de dizermos a verdade.

Nós calamos a verdade, temos medo dos olhares que sentimos serem acusatórios, isso porque nem sabemos se isso este é um fato, apenas imaginamos, e calamos a pergunta que poria fim ao início de tal tortura mental.

Doença.
Câncer do medo, da angústia, da falsidade, da hipocrisia.
Demência.

E acabamos doentes dos nossos corpos.
Corpos doentes de mentes silenciosas.
Corpos doentes de mentes que gritam mentiras, por medo.

Corpo que disserta parábolas em forma de manchas e doenças por culpa de uma mente que silencia.

O corpo que fala sobre a mente que cala.

Nós somos doentes mentais.
Nós somos físicos doentes.
Nós somos cem por cento esquálidos e definhamos em nós mesmos, cobrindo tudo com uma máscara natural.

Somos todos dementes.

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